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O ponto de virada ético: propósito, medicina e o dia em que a máquina fizer melhor do que eu

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Mão de cirurgião segurando uma pinça e mão robótica se aproximando sobre o campo cirúrgico, sob a luz da sala de cirurgia

Por Dr. Alexandre Campos Moraes Amato

Nas minhas últimas férias, fiquei em casa e lancei um aplicativo na web. Sozinho, eu levaria um ano. Levei uma semana, orquestrando inteligências artificiais que escreveram o código, testaram, corrigiram e publicaram. Me diverti do começo ao fim. E, ainda assim, tenho plena consciência de uma coisa incômoda: meu aplicativo já nasceu morto.

Não é pessimismo, é observação. Qualquer ferramenta que a gente construa hoje sobre inteligência artificial é um intermediário entre o usuário e a própria IA. E a história recente mostra o que acontece com intermediários.

O desaparecimento dos intermediários

Há pouco mais de dois anos, pedi a uma IA que me ajudasse a criar um QR code para uma aula. Ela me indicou um site onde eu poderia gerá-lo. Meses depois, fiz o mesmo pedido, e ela simplesmente entregou o QR code pronto: o site intermediário tinha se tornado desnecessário. Hoje eu não peço mais o QR code. Peço a aula inteira, e ela vem pronta, com o QR code no lugar certo.

Esse pequeno exemplo doméstico resume um padrão que se repete em escala industrial. Cada camada de serviço que existe entre a intenção de uma pessoa e o resultado que ela deseja está sendo absorvida. Quem constrói um produto que apenas empacota a capacidade de uma IA está construindo algo que a próxima versão dessa mesma IA fará nativamente. A velocidade disso é inédita, porque a própria IA participa da criação da IA seguinte. Modelos ajudam a treinar, avaliar e programar seus sucessores, e o intervalo entre gerações, que era de anos, hoje se mede em semanas.

Continuo construindo mesmo assim. Primeiro porque aprendo, segundo porque me divirto, terceiro porque acredito que ajuda alguém enquanto dura. Mas essa constatação me empurrou de volta a uma pergunta que deixei aberta há um ano, quando escrevi neste espaço sobre a era pós-trabalho: se a máquina vai fazer melhor, por que continuar fazendo?

A era do propósito

Naquele artigo, usei a velha metáfora de que a caneta pesa menos que a enxada, e a ironia de descobrir que a enxada pode continuar existindo enquanto a caneta desaparece. O trabalho intelectual, que sempre se considerou superior e insubstituível, está caindo primeiro. Um ano depois, a previsão só acelerou, e o que era um horizonte distante começou a virar cronograma. Confesso certo alívio irônico de ter uma profissão que também usa as mãos.

Passamos os últimos séculos organizando a vida em torno do trabalho como sobrevivência. Trabalha-se porque é preciso comer, pagar contas, sustentar uma família. Alguns têm a sorte de trabalhar também por gosto, mas o gosto sempre foi um bônus, nunca o critério.

Acredito que estamos entrando na era do propósito. Quando a inteligência artificial executa tarefas cognitivas melhor e mais barato do que nós, a pergunta “do que você vive?” começa a ser substituída por “para que você acorda?”. Se a IA faz melhor do que eu, a única razão legítima para eu continuar fazendo é gostar de fazer. Quem acorda feliz para trabalhar tem um problema a menos nessa transição. Quem trabalha arrastado, apenas pela obrigação, vai precisar procurar um propósito, e essa busca talvez seja o grande desafio psicológico da próxima década.

Só que há um domínio em que esse raciocínio ganha um peso que não existe em nenhum outro: a saúde.

O ponto de virada ético

Posso continuar programando por prazer mesmo quando a IA programar melhor do que eu, porque um aplicativo pior não mata ninguém. Posso jogar tênis de mesa sem ser o melhor do mundo, tocar um instrumento mal, pintar quadros medíocres. Em quase tudo na vida, ser pior do que a máquina é irrelevante, porque a atividade vale por si.

Na medicina, não. Na cirurgia, menos ainda.

Quando escrevi sobre a era pós-trabalho, afirmei que, no dia em que os robôs superarem comprovadamente os cirurgiões humanos, resistir à automação não será apenas “obsolescência profissional”, será “negligência ética”. Volto ao ponto agora porque ele deixou de ser uma nota de rodapé futurista e virou a questão central da minha profissão. No dia em que ficar demonstrado, com metodologia sólida, que um sistema autônomo opera com resultados consistentemente superiores aos meus, com menos complicações, menos mortalidade e melhor recuperação, continuar operando por apego à profissão deixará de ser uma escolha romântica e passará a ser uma falha ética. O amor pelo ofício não é justificativa para entregar ao paciente um resultado pior do que o disponível. Esse é o ponto de virada: o momento em que o propósito pessoal do médico colide com o interesse do paciente, e o interesse do paciente vence, como sempre venceu na boa medicina.

Não estou falando de um futuro distante e especulativo. Em ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Network Open, um modelo de linguagem sozinho obteve desempenho superior ao de médicos no raciocínio diagnóstico de casos complexos. O sistema AMIE, do Google, superou médicos de atenção primária em acurácia diagnóstica e até em empatia percebida, em consultas simuladas por texto publicadas na Nature. A Microsoft anunciou que seu orquestrador diagnóstico resolveu 85% dos casos mais difíceis do New England Journal of Medicine, contra cerca de 20% dos médicos experientes no mesmo teste. Diagnóstico não é cirurgia, e ainda há um oceano entre acertar casos de prova e conduzir um paciente real. Mas a direção é inequívoca.

Ceticismo é obrigação, não resistência

Aqui entra um ponto que me é caro. O ponto de virada não pode ser proclamado por manchete, nem por press release de empresa de tecnologia, nem por artigo mal feito. Ele precisa ser demonstrado com a mesma régua que exigimos de qualquer intervenção em saúde: metodologia adequada, desfechos que importam, replicação independente.

E a régua vale para os dois lados. Recentemente li um artigo que concluía que a IA era muito pior do que os médicos em determinada tarefa. A conclusão pode até ser verdadeira, mas a metodologia era tão frágil que não sustentava nem essa afirmação nem a contrária. O estudo da Microsoft, por sua vez, comparou seu sistema com médicos proibidos de consultar referências, uma condição que não existe na prática real. Aceitar acriticamente que a IA já é melhor é tão perigoso quanto negar por corporativismo que ela um dia será. O ceticismo metodológico é justamente o instrumento que vai nos dizer, com honestidade, quando o ponto de virada chegou.

Sobreviver até lá

Enquanto isso, sigo operando, porque hoje ainda sou eu quem entrega o melhor resultado ao meu paciente. Sigo usando a IA como ela deve ser usada agora: para ler por mim as centenas de artigos que não conseguiria ler, para organizar o que minha atenção dispersa deixaria escapar, para multiplicar o que um único cérebro consegue orquestrar. E sigo construindo meus aplicativos natimortos, com alegria, porque a jornada vale mesmo quando o destino já está escrito.

A nossa sobrevivência profissional vai até o ponto de virada. Depois dele, o que sobra não é o vazio. Escrevi há um ano que, na era pós-trabalho, sobrevive o mais adaptável, e que o verdadeiro progresso se mede pelo quanto ele preserva a nossa humanidade. Adaptar-se, aqui, é responder sem desculpas à pergunta mais antiga e mais humana de todas, que a tecnologia finalmente vai nos obrigar a encarar: o que você faria se não precisasse ser o melhor em nada para merecer o seu dia?

Referências

  1. Goh E, et al. Large Language Model Influence on Diagnostic Reasoning: A Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open. 2024.
  2. Tu T, McDuff D, et al. Towards conversational diagnostic artificial intelligence. Nature. 2025.
  3. Microsoft AI. The Path to Medical Superintelligence. 2025.
  4. Goh E, et al. GPT-4 assistance for improvement of physician performance on patient care tasks: a randomized controlled trial. Nature Medicine. 2025.
  5. Amato ACM. O Amanhã Que Já Começou: Navegando pela Era Pós-Trabalho e o Nascimento do Socialismo Digital. Cultura e Saúde. 2025.

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