Um pai que salvou milhões de vidas

ATLS

Jordano Araújo

No inverno de 1976, um avião bimotor Beachcraft Barron pilotado pelo ortopedista James Styner atravessava um agrupamento de nuvens, com destino à cidade de Lincoln (Nebraska). O piloto, desorientado, tentou diminuir a altitude e acabou colidindo contra o solo, numa situação chamada em aviação de CFIT (controlled flight into terrain).

No voo estavam sua esposa Charlene e seus quatro filhos: Chirstopher, Richard, Randal e Kimberly. Styner, quando retomou a consciência, percebeu que tinha um ferimento grave na testa e dores no tórax, provavelmente por causa de fraturas. Zonzo, ele começou a tatear na escuridão com receio do que poderia encontrar.

Do fundo do avião uma voz chamou: “Pai?”. Ele a reconheceu imediatamente, era seu filho Chris. O chamado do garoto fez com que a mente dele imediatamente entrasse em modo de ação.

Ele descobriu que Chris, apesar de fraturas e ferimentos no antebraço e na mão direita, era a única pessoa consciente. Richard, Randal e Kim não respondiam aos estímulos, mas pelo menos tinham o pulso palpável. A esposa Charlene, ele descobriu mais tarde, fora ejetada da aeronave e estava morta.

A preocupação de Styner agora era retirar todos os sobreviventes da aeronave, que podia se incendiar a qualquer momento. Depois de fazê-lo, ele tentou cobri-los com o que sobrou das roupas que conseguiu encontrar, já que o frio congelante poderia matá-los por hipotermia.

Mesmo ferido, ele andou cerca de um quilômetro até encontrar uma rodovia. Lá conseguiu acenar para um automóvel que passava, que foi com ele até o local do acidente. Colocaram todas as crianças no carro, que os levou até um hospital rural na cidade de Auburn (Nebraska, EUA). O hospital estava fechado. Depois que conseguiu encontrar os funcionários, Styner ficou angustiado pela desorganização no atendimento e pela falta de competência da equipe local. Quando um médico pegou seu filho inconsciente no colo para levá-lo à sala de radiografia, a cabeça se inclinou para trás. Styner ficou desesperado: “Por Deus, estabilize a coluna! Pode ter uma fratura de coluna cervical!”. O médico lançou um olhar de interrogação, obviamente sem entender o motivo da preocupação.

Ele exigiu, aos brados, que todos fossem transferidos para Lincoln, a cidade onde trabalhava no Lincoln General Hospital. Helicópteros da Guarda Nacional foram acionados e realizaram o transporte. Apesar dos ferimentos graves, todos sobreviveram.

Essa experiência aterrorizante fez com que Styner tomasse uma atitude. Ele resolveu mudar a maneira como era feito o atendimento ao trauma.

Juntamente com outros médicos locais, da Lincoln Medical Education Foundation e da Universidade de Nebraska, ele analisou os métodos de padronização de atendimento de emergência. Nos EUA já existia o chamado ACLS (Suporte Avançado de Vida em Cardiologia), um sistema de treinamento no qual as emergências cardiológicas são abordadas por critérios de prioridade, baseado na premissa básica do ditado em inglês “first things first” (algo como “as coisas mais importantes primeiro”).

Tomando emprestados os princípios do ACLS, eles criaram um curso chamado ATLS (Suporte Avançado de Vida no Trauma), que ensina que as condições mais ameaçadoras à vida são tratadas primeiro.

Em 1980, esse curso foi “adotado” pelo American College of Surgeons e passou a ser ensinado a milhões de médicos ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

O ATLS é, hoje, o fundamento do atendimento ao trauma em todo o mundo e provavelmente ajudou a salvar milhões de vidas e evitar sequelas. E tudo começou com um pai que, em condições incrivelmente adversas, lutou para salvar seus filhos.

Parabéns a todos os pais que fazem o possível (e o impossível) para cuidar dos filhos!

PS: Se você gosta do assunto, sugiro ver o depoimento do próprio James Styner (https://www.youtube.com/watch?v=xgoh6OXEnBw) ou ler o livro de seu filho Randal sobre o evento (STYNER, R.; FARLEY, T. The light of the moon: life, death and the birth of advanced trauma life support. 2012.)

Imagens:


1. James Styner com a família

 

ATLS
2. Destroços do acidente

Fontes:
CARMONT, M. The Advanced Trauma Life Support course: a history of its development and review of related literature. Postgraduate medical journal, v. 81, n. 952, p. 87, 2005.
COLLICOTT, Paul E. Advanced trauma life support (atls): past, present, future-16Th stone lecture, American trauma society. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, v. 33, n. 5, p. 749-753, 1992.
STYNER, R.; FARLEY, T. The light of the moon: life, death and the birth of advanced trauma life support. 2012.

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